Os tempos
atuais requerem dos estudiosos e pensadores uma visão multidisciplinar em face
da complexidade existencial das sociedades e de seus valores postos sobre o
paradigma dos capitais, desassociados de qualquer compromisso produtivo. Bauman (Zygmunt Bauman (1995), A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral
Pós-Moderna, Relógio d’Água, pp. 41. Publicada por AMCD em Segunda-feira, Março 29, 2010. Etiquetas: Bauman, Citações,
Filosofia,
Sociologia.
http://trabalhosedias.blogspot.com/search/label/Bauman
em 18/02/11) assim escreve:
O ROLO
COMPRESSOR DO «DESENVOLVIMENTO» CAPITALISTA
“As vítimas do
«desenvolvimento» - o verdadeiro rolo compressor de Giddens, que esmaga tudo e
todos os que encontre no seu caminho - «evitadas pelo sector avançado e
cortadas dos antigos usos...são seres expatriados nos seus próprios países».
Por toda a parte por onde o rolo compressor passa, o saber-fazer desaparece,
para ser substituído pela escassez de competências; surge o mercado de trabalho
mercadoria onde outrora os homens e mulheres viviam; a tradição torna-se um
lastro pesado e um fardo dispendioso; as utilidades comuns transformam-se em
recursos subaproveitados, a sabedoria em preconceito, os sábios em portadores
de superstições.”
“E não é só que o rolo
compressor não se mova apenas por sua própria iniciativa, mas com o apoio e
reforço pelas turbas das suas futuras vítimas ávidas de serem esmagadas (ainda
que, nalguns casos, o rolo aja por si só, sentimo-nos muitas vezes tentados a
falar, mais do que de um rolo compressor, de um Moloch - essa divindade de
pedra com uma pira acesa no ventre, em cujo interior as vítimas autodesignadas
se precipitam com regozijo, entre cantos e danças); é, além disso, depois de
começar a funcionar, empurrado pelas costas, sub-reptícia, mas incessantemente,
por multidões incontáveis de especialistas, de engenheiros, de empresários, de
negociantes de sementes, fertilizadores e pesticidas, ferramentas e motores, de
cientistas dos institutos de investigação e também de políticos, tanto
indígenas como cosmopolitas, que buscam, todos eles, o prestígio e a glória. É
deste modo que o rolo compressor parece imparável, ao mesmo tempo que a
impressão de ser impossível pará-lo o torna ainda mais insuportável. Parece não
haver maneira possível de escapar a este «desenvolvimento», «naturalizado» sob
a forma de qualquer coisa que se assemelha muito a uma «lei da natureza» pela
parte moderna do globo, desesperadamente em busca de novos fornecimentos do
sangue virgem do qual necessita para se manter vivo e em forma. Mas o que é que
este «desenvolvimento» desenvolve?”
Bauman é o autor da teoria da liquefação
dos valores sociais como consequência da globalização. O rolo compressor, posto
como um Moloch faz todo o sentido
quando se verifica a ausência de valores e a superficialidade com que as
sociedades aceitam sobreviver. Com toda a vênia, ouso discordar de Bauman quando ele associa o rolo
compressor ao capitalismo, tenho a convicção de que o capitalismo não é a mesma
coisa do liberalismo e muito menos do neoliberalismo.
Ao iniciar o
artigo com este magnífico texto de Bauman,
pretendo chamar a atenção para a necessidade de questionar criticamente (de
forma ética), não só as ações privadas, mas, em especial, as ações políticas do
Poder Público.
O canal de
televisão Futura faz uma chamada muito interessante: “O mundo é feito de
perguntas e não de respostas.” Nesta pequena frase está resumidamente todo o
conceito que Bauman define como “rolo
compressor do desenvolvimento” e a perda das capacitações éticas, ou críticas,
alienantes da sociedade.
Nietzsche, em seu livro Além do Bem e do Mal,
aforismo 64, página 76; escreve: ““A ciência pela ciência” é a última cilada
que nos arma a moral — e é precisamente essa que envolve a todos
inextrincavelmente em sua rede”. É, na verdade, uma crítica ao racionalismo
kantiano enquanto instrumento da verdade, bem como ao empirismo fundado na
coisa dada e apreensão dos fatos.
SOBRE
SACOLAS E SACOLINHAS
No Brasil,
predomina o populismo político, que não é outra coisa, se não, a política das
esmolas rotas que obstruem a visão de uma classe ociosa, na concepção de Thorstein Veblen, a qual vive por se
autolocupletarem à custa do erário público adquirido na forma de tributos.
Assim funciona o Poder Público no Brasil.
Escolas,
creches, viadutos, obras de infraestrutura, hidrelétricas, obras nunca
faltaram. Nos grandes centros urbanos não é difícil encontrar uma escola ou um
centro médico. Mas funcionam? Podemos dizer que temos um razoável serviço
público em alguma área da competência do Estado? Acreditamos nos estudos de
impacto ambiental que foram realizados para a liberação da construção da
Hidrelétrica de Belo Monte? Ou da construção da ferrovia que devastará os
manguezais baianos?
Quem sabe as
verdadeiras intenções da guerra contra as sacolinhas de mercado? Se
considerarmos que não foi divulgado nenhum projeto de mudança nas embalagens e
rotulagens de produtos industrializados, como também, nenhuma mudança no
material que embala os produtos hortifrúti, dentro das poderosas sacolas
biodegradáveis serão transportados quilos de plásticos que irão para os lixões.
Mas é o começo! É um passo Importante! Para quem e para o que? Quem já tem
consciência da preservação do meio ambiente, para nada serviu. Quem não tem tal
consciência, não é parvo, é apenas uma pessoa neoliberal egocêntrico (pensa no
bom para ele), portanto, sabe que está transportando todo o tipo de plástico
para sua casa, apenas passou a pagar pela sacola.
Esta
discussão, em ano eleitoral, oportuna levantar temas inquietantes, tais como: o
rolo compressor desenvolvimentista de Bauman
(o Moloch do senso comum), da
descrença de Nietzsche das coisas por elas mesmas, que o Poder Público
funciona como uma classe ociosa arrecadadora de tributos na concepção vebleniana
e nós vivemos o senso comum, perdemos a nossa capacidade de visão crítica.
Finalizo com
mais um aforismo de Nietzsche: “A atração exercida
pelo conhecimento seria bastante fraca, se para atingi-lo não fosse preciso
vencer tantos pudores.”
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