O tempo é um eterno fugitivo, por isso, a vida deve ser intensa e a intensidade de viver advém de valores benéficos a sua continuidade, pois o dia seguinte está por amadurecer e deverá ser vivido com a mesma intensidade de hoje. Tempus Fugit, Carpe Diem.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SOBRE SACOLAS E SACOLINHAS: UMA MUDANÇA NOS HÁBITOS DOS CONSUMIDORES


Os tempos atuais requerem dos estudiosos e pensadores uma visão multidisciplinar em face da complexidade existencial das sociedades e de seus valores postos sobre o paradigma dos capitais, desassociados de qualquer compromisso produtivo. Bauman (Zygmunt Bauman (1995), A Vida Fragmentada, Ensaios sobre a Moral Pós-Moderna, Relógio d’Água, pp. 41. Publicada por AMCD em Segunda-feira, Março 29, 2010. Etiquetas: Bauman, Citações, Filosofia, Sociologia. http://trabalhosedias.blogspot.com/search/label/Bauman em 18/02/11) assim escreve:


O ROLO COMPRESSOR DO «DESENVOLVIMENTO» CAPITALISTA

“As vítimas do «desenvolvimento» - o verdadeiro rolo compressor de Giddens, que esmaga tudo e todos os que encontre no seu caminho - «evitadas pelo sector avançado e cortadas dos antigos usos...são seres expatriados nos seus próprios países». Por toda a parte por onde o rolo compressor passa, o saber-fazer desaparece, para ser substituído pela escassez de competências; surge o mercado de trabalho mercadoria onde outrora os homens e mulheres viviam; a tradição torna-se um lastro pesado e um fardo dispendioso; as utilidades comuns transformam-se em recursos subaproveitados, a sabedoria em preconceito, os sábios em portadores de superstições.”

“E não é só que o rolo compressor não se mova apenas por sua própria iniciativa, mas com o apoio e reforço pelas turbas das suas futuras vítimas ávidas de serem esmagadas (ainda que, nalguns casos, o rolo aja por si só, sentimo-nos muitas vezes tentados a falar, mais do que de um rolo compressor, de um Moloch - essa divindade de pedra com uma pira acesa no ventre, em cujo interior as vítimas autodesignadas se precipitam com regozijo, entre cantos e danças); é, além disso, depois de começar a funcionar, empurrado pelas costas, sub-reptícia, mas incessantemente, por multidões incontáveis de especialistas, de engenheiros, de empresários, de negociantes de sementes, fertilizadores e pesticidas, ferramentas e motores, de cientistas dos institutos de investigação e também de políticos, tanto indígenas como cosmopolitas, que buscam, todos eles, o prestígio e a glória. É deste modo que o rolo compressor parece imparável, ao mesmo tempo que a impressão de ser impossível pará-lo o torna ainda mais insuportável. Parece não haver maneira possível de escapar a este «desenvolvimento», «naturalizado» sob a forma de qualquer coisa que se assemelha muito a uma «lei da natureza» pela parte moderna do globo, desesperadamente em busca de novos fornecimentos do sangue virgem do qual necessita para se manter vivo e em forma. Mas o que é que este «desenvolvimento» desenvolve?”


Bauman é o autor da teoria da liquefação dos valores sociais como consequência da globalização. O rolo compressor, posto como um Moloch faz todo o sentido quando se verifica a ausência de valores e a superficialidade com que as sociedades aceitam sobreviver. Com toda a vênia, ouso discordar de Bauman quando ele associa o rolo compressor ao capitalismo, tenho a convicção de que o capitalismo não é a mesma coisa do liberalismo e muito menos do neoliberalismo.

Ao iniciar o artigo com este magnífico texto de Bauman, pretendo chamar a atenção para a necessidade de questionar criticamente (de forma ética), não só as ações privadas, mas, em especial, as ações políticas do Poder Público.

O canal de televisão Futura faz uma chamada muito interessante: “O mundo é feito de perguntas e não de respostas.” Nesta pequena frase está resumidamente todo o conceito que Bauman define como “rolo compressor do desenvolvimento” e a perda das capacitações éticas, ou críticas, alienantes da sociedade.

Nietzsche, em seu livro Além do Bem e do Mal, aforismo 64, página 76; escreve: ““A ciência pela ciência” é a última cilada que nos arma a moral — e é precisamente essa que envolve a todos inextrincavelmente em sua rede”. É, na verdade, uma crítica ao racionalismo kantiano enquanto instrumento da verdade, bem como ao empirismo fundado na coisa dada e apreensão dos fatos.

SOBRE SACOLAS E SACOLINHAS

No Brasil, predomina o populismo político, que não é outra coisa, se não, a política das esmolas rotas que obstruem a visão de uma classe ociosa, na concepção de Thorstein Veblen, a qual vive por se autolocupletarem à custa do erário público adquirido na forma de tributos. Assim funciona o Poder Público no Brasil.

Escolas, creches, viadutos, obras de infraestrutura, hidrelétricas, obras nunca faltaram. Nos grandes centros urbanos não é difícil encontrar uma escola ou um centro médico. Mas funcionam? Podemos dizer que temos um razoável serviço público em alguma área da competência do Estado? Acreditamos nos estudos de impacto ambiental que foram realizados para a liberação da construção da Hidrelétrica de Belo Monte? Ou da construção da ferrovia que devastará os manguezais baianos?

Quem sabe as verdadeiras intenções da guerra contra as sacolinhas de mercado? Se considerarmos que não foi divulgado nenhum projeto de mudança nas embalagens e rotulagens de produtos industrializados, como também, nenhuma mudança no material que embala os produtos hortifrúti, dentro das poderosas sacolas biodegradáveis serão transportados quilos de plásticos que irão para os lixões. Mas é o começo! É um passo Importante! Para quem e para o que? Quem já tem consciência da preservação do meio ambiente, para nada serviu. Quem não tem tal consciência, não é parvo, é apenas uma pessoa neoliberal egocêntrico (pensa no bom para ele), portanto, sabe que está transportando todo o tipo de plástico para sua casa, apenas passou a pagar pela sacola.

Esta discussão, em ano eleitoral, oportuna levantar temas inquietantes, tais como: o rolo compressor desenvolvimentista de Bauman (o Moloch do senso comum), da descrença de Nietzsche das coisas por elas mesmas, que o Poder Público funciona como uma classe ociosa arrecadadora de tributos na concepção vebleniana e nós vivemos o senso comum, perdemos a nossa capacidade de visão crítica.

Finalizo com mais um aforismo de Nietzsche: “A atração exercida pelo conhecimento seria bastante fraca, se para atingi-lo não fosse preciso vencer tantos pudores.”

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