O tempo é um eterno fugitivo, por isso, a vida deve ser intensa e a intensidade de viver advém de valores benéficos a sua continuidade, pois o dia seguinte está por amadurecer e deverá ser vivido com a mesma intensidade de hoje. Tempus Fugit, Carpe Diem.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

PROLEGÔMENOS DA METAFÍSICA

Na lavra de Habermas, encontram-se interessantes reações sobre o retorno a formas metafísicas de pensamento no ano de 1988.[1]
É notório que o ceticismo em relação a esse primado do ser sobre o pensamento e o peso próprio da reflexão sobre questões de método, engendram motivos importantes que pesaram na passagem do pensamento ontológico ao mentalismo. A auto-referência do sujeito cognoscente abre o acesso para uma esfera interior de representações, curiosamente certa, que nos pertence inteiramente, a qual precede o mundo dos objetivos representados. A metafísica surgira como a ciência do geral imutável e necessário; a partir de agora ele só pode encontrar um equivalente numa teoria da consciência, a qual fornece as condições subjetivas necessárias para a objetividade de juízos gerais, sintéticos a priori. Assim é possível explicar a relação ambígua de Kant com a metafísica, bem como a mudança de significado que esse termo sofre através da crítica Kantiana à razão[2].

Ainda, segundo Habermas, pode-se manter a expressão “metafísica” para todo o tipo de elaboração de questões metafísicas que visam à totalidade do mundo do homem, citando as concepções de Leibniz, Spinosa ou Schelling e incluindo a doutrina Kantiana dos dois reinos, situadas na tradição dos grandes esboços sistemáticos, que têm início em Platão e Aristóteles[3]. E conclui este pensamento: Aos olhos de Heidegger, o próprio Nietzsche ainda tem de ser visto como um metafísico, por ser um pensador moderno, sujeito ao princípio da subjetividade[4].
Habermas afirma não ter dúvidas quanto às tarefas reconstrutivas da Filosofia, elencando duas espécies de metafísica: A da natureza (conhecimento que determina objetos) e a metafísica dos costumes ou arquitetônica da razão (Kant), com a separação das faculdades do conhecimento objetivador, da intuição moral e do juízo estético, concluindo que: “Todas as competências da espécie, de sujeitos capazes de falar e de agir, são acessíveis a uma reconstrução racional, na qual se detecta aquele saber prático do qual lançamos mão intuitivamente quando produzimos qualquer realização já comprovada”[5].
“Mas alguma coisa ocorreu. Quebrou-se o encanto. O céu, morada de Deus e seus santos, ficou de repente vazio. Virgens não mais apareceram em grutas. Milagres se tornaram cada vez mais raros, e passaram a ocorrer sempre em lugares distantes com pessoas desconhecidas. A ciência e a tecnologia avançaram triunfalmente, construindo um mundo em que Deus não era necessário como hipótese de trabalho. Na verdade, uma das marcas do saber científico é o seu rigoroso ateísmo metodológico [...]”[6].

Entende-se que os métodos científicos jamais decifrarão a metafísica em função do racionalismo construtivista, mesmo detectando saberes intuitivamente ou a priori, é indispensável a reconstrução, no dizer de Kant a construção de um juízo analítico, de alguma realidade imanente que valide o juízo sintético.
Da mesma forma, a razão não pode perscrutar elementos que transcendam a natureza em todos os aspectos da razão humana. Trata-se de objetos diferentes, de relações diversas que falam de mundos diversos: enquanto a razão fica circunscrita ao mundo natural, ou mundo dos homens, a metafísica reporta-se ao mundo de Deus.
Muito bem colocou Habermas quando, benevolentemente, escreveu que, para o europeu, seria de menos complexidade o entendimento metafísico na tradição judaico cristã, contudo, ao ampliar-se o espectro metafísico a outras formas de tradição religiosa se tornaria impossível harmonizar a compreensão racional diante da variedade e divergentes formas de conhecimentos a priori.
[...] O animal é o seu corpo. Sua programação biológica é completa, fechada, perfeita. Não há problemas não respondidos. E, por isso mesmo, ele não possui qualquer brecha para que alguma coisa nova seja inventada. [...] A aventura da liberdade não lhes é oferecida, mas não recebem, em contrapartida, a maldição da neurose e o terror da angústia.
Como são diferentes as coisas com o homem! Se o corpo do animal me permite prever que coisas produzirá [...] e as coisas por ele produzidas me permitem saber de que corpo partiram, não existe nada semelhante que se possa dizer dos homens. [...] Porque o homem, diferentemente do animal que é o seu corpo, tem o seu corpo. Não é o corpo que o faz. É ele que faz o seu corpo[7].

Kant chamou de metafísica a ciência que estuda Deus, liberdade e imortalidade. Existem outros nomes e outras conceituações, por exemplo, a Teologia, cujo especialista se dedica a estudar os tais fenômenos, porém com grandes limitações geradas pelos dogmas religiosos. Neste ponto, indaga-se: terá a ciência a mesma sorte? Enquanto as religiões impedem a Teologia de qualquer contribuição para uma compreensão harmoniosa das questões metafísicas, a metodologia científica também não procura aprisionar o conhecimento adquirido pela razão, emoldurando o corpo?
A Teologia viveu sob a influência do racionalismo, especialmente o racionalismo alemão. Com investimentos do Estado, inaugurou-se o período da hermenêutica crítica literária e da crítica da forma. Muito se investiu em arqueologia e nas pesquisas linguísticas com o propósito de criação de uma base de entendimento do texto canônico. Vale destacar que os objetivos das pesquisas sempre foram focados na tradição judaico-cristã. Na informação de Werner Georg Kümmel, em seu livro Einleitung in das neue testament  (Quelle & Meyer, Heidelberg, 1973  no parágrafo terceiro de sua introdução, é feito um pequeno histórico a respeito da crítica textual, citando a obra Histoire Critique do NT, de Richard Simon (1689–1693) como o início do caminho para uma introdução ao Novo Testamento como disciplina científica. Kümmel cita inúmeros autores, dos quais desça-se: J. D. Michaelis, com sua obra Einleitung in die göttlichen Schriften dês Neuen Bundes (1750); J.S. Semler: Abbandlung Von freier Untersuchung des Canon (1771 – 1775); J. G. Eichhorn: Einleitung in das NT (1804 – 1827), em cinco volumes constituem a primeira pesquisa realmente livre de opiniões preconcebidas a respeito da origem dos escritos do cânon e do texto do NT. Seguiram-se-lhes, mantendo o mesmo nível de seriedade crítica, as obras de Wette, Schleiermacher, Gredner, Reuss, Hug e outros[8].
Semelhante esforço se deu na análise crítica textual do Antigo Testamento, tendo iniciado também na época do Iluminismo e do racionalismo. O objetivo de trilhar o caminho filosófico contemporâneo à época, naturalmente foi de extrair da Bíblia a religião pura da razão. Na lavra de Georg Fohrer, a intenção baseava-se em considerações de natureza dogmática quanto no resultado da equação de doutrina eclesiástica com a teologia bíblica da parte do supranaturalismo, contra o qual lutava o racionalismo filosófico.[9] Registre-se, ainda, a confirmação da preconização de J. P. Gabler em 1787 em conferência sobre: a diferença real entre teologia bíblica e teologia dogmática e a correta determinação dessas duas disciplinas[10]. Registra, ainda, Fohrer:

Pelos fins de 1880, formou-se a escola histórica da religião [...] provocou uma clara distinção entre a perspectiva da história e a do dogma submetendo a religião israelita, o judaísmo e o cristianismo a uma abordagem estritamente histórica, que fosse impulsionada não por razões teológicas, mas simplesmente no seu próprio interesse, tendo como meta uma síntese histórica[11].

Julga-se necessário informar alguns dos resultados da aplicação de metodologia puramente científica ao cânone da tradição judaico cristã, para melhor compreensão do leitor laico. Destaca-se a reconstituição dos textos mais próximos dos originais que a ciência conseguiu chegar, constatação de pluralidade religiosa em ambos os livros sagrados, a autoria dos livros sucumbiu à análise histórica com exceção das epístolas paulinas, constou-se vários gêneros literários na grande maioria dos livros, indicando, em especial no chamado Velho Testamento, que a tradição oral foi a fonte principal dos manuscritos e a forma escrita feita por vários escritores de diversas influências, constou-se o uso de figuras mitológicas, figuras de linguagem e a influência de religiões próximas. Como consequência da aplicação do método crítico histórico e literário, há uma profunda quebra relacional com a teologia dogmática.
Outrossim, através de arrostados e permanentes estudos na área teológica, verificou-se que, apesar do apedeutismo histórico e literário constatado na juntada dos livros que compõem o cânon, indubitável restou não existirem divergências principiológicas de natureza teológica em nenhum dos livros. A Bíblia é uma harmoniosa coletânea de livros de natureza teológica, com diversos estilos literários e autores desconhecidos.
É interessante notar que o período do Iluminismo assemelha-se a um prelúdio que ambienta o racionalismo, onde uma eclosão de descobertas e saberes afloram como se o pensamento humano, liberto das cadeias medievais e do domínio governativo e da tutela dos dogmas da igreja papal, fosse provocado por um sistema de ignição produzindo simultânea e encadeadamente uma ciclópica quantidade e diversidade de conteúdos filosóficos. Ocorre como se fosse retirada a opressora rolha da mais sofisticada champanhe, liberando seus magníficos odores intensos e provocativos.
Não se pode excluir do estudo da metafísica, ainda que de forma tão resumida, a obra e o pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels, Soren Aabye Kierkegaard, Ludwig Feuerbach, Georg Wilhenlm Friedrich Hegel, Friedrich Wilhelm Nietzsche e muitos outros filósofos de renome e importância literária. Alguns dos citados autores hão de trazer suas contribuições para este trabalho monográfico, contudo, pretende-se limitar a dissertação sobre a metafísica aos limites de um capítulo, mesmo entendendo-se ser o tema central do racionalismo, ou para negá-la, reafirmá-la ou harmonizá-la às novas concepções do pensamento humano.
Antes de prosseguir-se no desenvolvimento analítico torna-se necessário e oportuno estabelecer o conceito autoral sobre o significado da linguagem por referência a metafísica, religião e teologia. A metafísica é a linguagem filosófica, portanto laica, que define a busca racional ou ideal de Deus, liberdade e vida eterna. A religião é o resultado de um experimento sensório permissivo ao dogmatismo, que pode produzir conjecturas filosóficas, teológicas, éticas e morais. Já a teologia se ocupa em conhecer os valores imanentes de Deus na vida dos seres humanos e na natureza. É uma análise profundamente voltada para a compreensão destes valores e de sua origem, razão pela qual a Teologia se ocupa em analisar a totalidade das potencialidades humanas, tanto em relação ao saber e a razão, quanto em relação aos sentimentos e emoções. A Teologia perpassa pela cultura, grupamento social, economia, filosofia, literatura, artes e todas as áreas do conhecimento e da vida humana. A Teologia compreendeu seus limites aos fenômenos transcendentes e não busca mais desvendar o que não nos foi dado a capacidade de conhecer.
Rubem Alves, com sua tradicional verve literária, desenvolve uma crítica a concepção de Marx sobre a religião e seu materialismo dialético, a qual se procurou trazer a termo em sinopse.
[...] Mas o solo em (Marx) pisa desconhece o mundo sacral. [...] Ele é secularizado do princípio ao fim e somente conhece a ética do lucro e o entusiasmo do capital e da posse. [...] De fato, o materialismo que é uma exigência do próprio sistema que só conhece o poder dos fatores materiais. É a lógica do lucro e da riqueza que assim estabelece – e não as inclinações pessoais daquele que a analisa. [...] (para Marx) A religião não era culpada (pelas desgraças sociais de então) pela simples razão de que ela não fazia diferença alguma. [...] Ela não era causa de coisa alguma. Um sintoma apenas. [...] Os filósofos revolucionários, hegelianos de esquerda, não passavam de réplicas de D. Quixote. [...] Marx riu disto. Os hegelianos vêem o mundo de cabeça para baixo. [...] “Não é a consciência que determina a vida; é a vida que determina a consciência”. E ele afirmava: “Até mesmo as concepções nebulosas que existem nos cérebros dos homens são necessariamente sublimadas do seu processo de vida, que é material, empiricamente observável e determinado por premissas materiais. [...] Os homens são os produtores de suas concepções”. “É o homem que faz a religião; a religião não faz o homem”. [...] Quem é esse homem que produz a religião? Ele é um corpo, corpo que tem de comer, corpo que necessita de roupa e habitação, corpo que se reproduz, corpo que tem que transformar a natureza, trabalhar, para sobreviver. Mas o corpo não existe no ar. [...] Vemos homens indissoluvelmente amarrados aos mundos onde se dá sua luta pela sobrevivência, e exibindo em seus corpos as marcas da natureza e as marcas das ferramentas. [...] E Marx se pergunta sobre um outro tipo de trabalho que daria prazer e felicidade aos homens, trabalho companheiro das criações dos artistas e do prazer não utilitário do brinquedo e do jogo... Trabalho expressão da liberdade, atividade espiritual criadora, construção de um mundo em harmonia com a intenção... É claro que Marx nunca viu esse sonho utópico realizado em sociedade alguma. Foi ele que o construiu [...]. [...] Sua marca está nisto: o homem deseja algo. Seu desejo provoca a imaginação visualiza aquilo que é desejado [...]. A imaginação e o desejo informam ao corpo, que se põe a trabalhar, por amor ao objeto que deve ser criado. E quando o trabalho termina o criador contempla a sua obra, vê que é muito boa e descansa...”[12].

Rubem Alves segue questionando os processos que envolvem o trabalhador dentro das condições atuais: ele tem que alienar o seu desejo, pois trabalha para outro e pelo desejo do outro, o objeto a ser produzido não é resultado de sua decisão. Na verdade, o trabalhador, muitas vezes, participa de uma pequena parte do fazer o objeto, aperta um parafuso, dá uma martelada. Por tudo isso, o trabalho não é uma atividade prazerosa, mas uma atividade que dá sofrimento e cria um mundo independente da vontade de operários... e capitalistas, que são igualmente alienados pela lei do lucro. Este é o mundo secular, utilitário, capitalista, regido pela lógica do dinheiro, contra o qual os trabalhadores só possuem seus corpos que para produzirem necessitam estar acoplados às máquinas. Igualmente acoplados estão os corpos que habitam o mundo do lucro, não a máquinas, mas aos colarinhos brancos, aos restaurantes que frequentam, às aventuras amorosas que têm, e às enfermidades cardiovasculares que os afligem. Compreende-se que o que as pessoas têm normalmente nas suas cabeças não seja conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um mundo absurdo. Marx antevê o fim da religião. Ela só existe numa situação marcada pela alienação. É equivocado pensar que o sagrado é somente aquilo que ostenta os nomes religiosos tradicionais[13].
“Parece que a crítica marxista da religião não termina com ela, mas simplesmente inaugura um outro capítulo. Porque, como Albert Camus corretamente observa, “Marx foi o único que compreendeu que a religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de política...”.”[14].

Olhar a metafísica através da dogmática religiosa é um equívoco metodológico e tentar provar as questões transcendentes é minimamente uma improbidade da razão. O Deus da tradição dogmática religiosa morreu, as certezas eternas se desfizeram. Os homens pensaram que podiam se apropriar da essência do Deus vivo e defini-lo como quem formula uma equação matemática e assegurar, como numa ciência, a imutabilidade da fórmula. Pífia pretensão dos criadores de deuses de acrófobos filósofos, que não sobem as montanhas, que não sabem voar nem se deixam levar pelos ventos do outono, tampouco entendem a dureza do frio dos invernos, não param sua produção para perceberem os odores, as cores, o encontro entre a transcendência e a imanência da vida nas primaveras, encantadas, mágicas. Chegam barulhentas de tanta vida, de tanta beleza e significados, preparando toda a vida do hemisfério para o verão. Esqueceu-se que os corpos humanos não se modificam pelas estações do ano, talvez por isso, as sociedades só consigam sentir a diferença de temperatura e umidade, lamentar e resmungar de acordo com as preferências. Quem sequer tem a capacidade de se harmonizar com a natureza terá a capacidade de decifrar os mais íntimos segredos da transcendência? Pois ela estará sempre a desafiar a incapacidade humana, das sociedades vazias de conhecimentos que deem sentido a existência. É a fonte primeva dos valores fundantes da vida, das sociedades e de todas as ciências, mesmo que estas lhe negue a existência. É da transcendência que emana todos os princípios valorosos que dão a vida à orientação e a possibilidade de ser.


[1] Restam ao autor dúvidas quanto à inclusão nesta dissertação de tema tão controverso na história do conhecimento humano, em especial em função de já se haver concluído que a Ciência do Direito Brasileiro segue uma linha iniciada em Augusto Kant e fundada no neopositivismo. Contudo, a imperiosidade do momento gera razões que propiciem passar-se ao largo do assunto, ainda que, a abordagem seja um modesto ensaio superficial, orientador.
[2] HABERMAS, Jürgen. Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos, traduzido do original alemão por: Nachmetaphysisches Denken, Philosophische Aufsätze. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990. P. 22
[3] Op. cit.
[4] Op. cit. P.23
[5] Op. cit.
[6] ALVES, Rubem. O que é Religião. São Paulo: ARS Poética, 1996. P. 6
[7] Op. cit. P. 10, 11.
[8] KÜMMWL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento; tradução de 17ª ed. Inteiramente refundida e aumentada da Introdução ao Novo Testamento por Paulo Feine e Johannes Behm por Isabel Fontes Leal Ferreira e João Paixão Neto. São Paulo: Paulus, 1982. P. 24-25
[9] FOHRER, Georg. História da Religião de Israel; tradução de Josué Xavier; revisão de João Bosco de Lavor Medeiros. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. Pg. 9-10
[10] Op. cit. - Pg. 9
[11] Op. cit. - Pg. 11
[12] ALVES, Rubem. O que é Religião. São Paulo: ARS Poética, 1996. Pg. 55-61
[13] Op. cit. - Pg. 61-66
[14] Op. cit. - Pg. 67

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