Na lavra de Habermas, encontram-se interessantes reações
sobre o retorno a formas metafísicas de pensamento no ano de 1988.[1]
É notório que o
ceticismo em relação a esse primado do ser sobre o pensamento e o peso próprio
da reflexão sobre questões de método, engendram motivos importantes que pesaram
na passagem do pensamento ontológico ao mentalismo. A auto-referência do
sujeito cognoscente abre o acesso para uma esfera interior de representações,
curiosamente certa, que nos pertence inteiramente, a qual precede o mundo dos
objetivos representados. A metafísica surgira como a ciência do geral imutável
e necessário; a partir de agora ele só pode encontrar um equivalente numa
teoria da consciência, a qual fornece as condições subjetivas necessárias para
a objetividade de juízos gerais, sintéticos a priori. Assim
é possível explicar a relação ambígua de Kant com a metafísica, bem como a
mudança de significado que esse termo sofre através da crítica Kantiana à razão[2].
Ainda, segundo Habermas, pode-se manter a
expressão “metafísica” para todo o tipo de elaboração de questões metafísicas
que visam à totalidade do mundo do homem, citando as concepções de Leibniz,
Spinosa ou Schelling e incluindo a doutrina Kantiana dos dois reinos, situadas
na tradição dos grandes esboços sistemáticos, que têm início em Platão e
Aristóteles[3].
E conclui este pensamento: Aos olhos de Heidegger, o próprio Nietzsche ainda
tem de ser visto como um metafísico, por ser um pensador moderno, sujeito ao
princípio da subjetividade[4].
Habermas afirma não ter dúvidas
quanto às tarefas reconstrutivas da Filosofia,
elencando duas espécies de metafísica: A da natureza (conhecimento que
determina objetos) e a metafísica dos costumes ou arquitetônica da razão
(Kant), com a separação das faculdades do conhecimento objetivador, da intuição
moral e do juízo estético, concluindo que: “Todas as competências da espécie, de sujeitos capazes de falar e de
agir, são acessíveis a uma reconstrução racional, na qual se detecta aquele
saber prático do qual lançamos mão intuitivamente quando produzimos qualquer
realização já comprovada”[5].
“Mas alguma coisa ocorreu. Quebrou-se o encanto. O céu,
morada de Deus e seus santos, ficou de repente vazio. Virgens não mais
apareceram em grutas. Milagres se tornaram cada vez mais raros, e passaram a
ocorrer sempre em lugares distantes com pessoas desconhecidas. A ciência e a
tecnologia avançaram triunfalmente, construindo um mundo em que Deus não era
necessário como hipótese de trabalho. Na verdade, uma das marcas do saber
científico é o seu rigoroso ateísmo metodológico [...]”[6].
Entende-se que os métodos científicos jamais decifrarão a
metafísica em função do racionalismo construtivista, mesmo detectando saberes
intuitivamente ou a priori, é indispensável a reconstrução, no dizer de
Kant a construção de um juízo analítico, de alguma realidade imanente que
valide o juízo sintético.
Da mesma forma, a razão não pode perscrutar elementos que
transcendam a natureza em todos os aspectos da razão humana. Trata-se de
objetos diferentes, de relações diversas que falam de mundos diversos: enquanto
a razão fica circunscrita ao mundo natural, ou mundo dos homens, a metafísica
reporta-se ao mundo de Deus.
Muito bem colocou Habermas quando, benevolentemente, escreveu
que, para o europeu, seria de menos complexidade o entendimento metafísico na
tradição judaico cristã, contudo, ao ampliar-se o espectro metafísico a outras
formas de tradição religiosa se tornaria impossível harmonizar a compreensão
racional diante da variedade e divergentes formas de conhecimentos a priori.
[...] O animal é o seu corpo. Sua programação biológica é
completa, fechada, perfeita. Não há problemas não respondidos. E, por isso
mesmo, ele não possui qualquer brecha para que alguma coisa nova seja
inventada. [...] A aventura da liberdade não lhes é oferecida, mas não recebem,
em contrapartida, a maldição da neurose e o terror da angústia.
Como são diferentes as coisas com o homem!
Se o corpo do animal me permite prever que coisas produzirá [...] e as coisas
por ele produzidas me permitem saber de que corpo partiram, não existe nada
semelhante que se possa dizer dos homens. [...] Porque o homem, diferentemente
do animal que é o seu corpo, tem o seu corpo. Não é o corpo que o faz. É
ele que faz o seu corpo[7].
Kant chamou de metafísica a ciência que estuda Deus,
liberdade e imortalidade. Existem outros nomes e outras conceituações, por
exemplo, a Teologia, cujo especialista se dedica a estudar os tais fenômenos,
porém com grandes limitações geradas pelos dogmas religiosos. Neste ponto,
indaga-se: terá a ciência a mesma sorte? Enquanto as religiões impedem a Teologia
de qualquer contribuição para uma compreensão harmoniosa das questões
metafísicas, a metodologia científica também não procura aprisionar o
conhecimento adquirido pela razão, emoldurando o corpo?
A Teologia viveu sob a influência do racionalismo,
especialmente o racionalismo alemão. Com investimentos do Estado, inaugurou-se
o período da hermenêutica crítica literária e da crítica da forma. Muito se
investiu em arqueologia e nas pesquisas linguísticas com o propósito de criação
de uma base de entendimento do texto canônico. Vale destacar que os objetivos
das pesquisas sempre foram focados na tradição judaico-cristã. Na informação de
Werner Georg Kümmel, em seu livro Einleitung in das neue testament (Quelle & Meyer, Heidelberg, 1973 no parágrafo terceiro de sua introdução, é
feito um pequeno histórico a respeito da crítica textual, citando a obra Histoire
Critique do NT, de Richard Simon (1689–1693) como o início do caminho para
uma introdução ao Novo Testamento como disciplina científica. Kümmel cita
inúmeros autores, dos quais desça-se: J. D. Michaelis, com sua obra Einleitung
in die göttlichen Schriften dês Neuen Bundes (1750); J.S. Semler: Abbandlung Von freier Untersuchung des Canon
(1771 – 1775); J. G. Eichhorn: Einleitung in das NT (1804 – 1827), em
cinco volumes constituem a primeira pesquisa realmente livre de opiniões
preconcebidas a respeito da origem dos escritos do cânon e do texto do NT. Seguiram-se-lhes, mantendo o mesmo nível de
seriedade crítica, as obras de Wette, Schleiermacher, Gredner, Reuss, Hug e
outros[8].
Semelhante esforço se deu na análise crítica textual do
Antigo Testamento, tendo iniciado também na época do Iluminismo e do
racionalismo. O objetivo de trilhar o caminho filosófico contemporâneo à época,
naturalmente foi de extrair da Bíblia a religião pura da razão. Na lavra de
Georg Fohrer, a intenção baseava-se em considerações de natureza dogmática
quanto no resultado da equação de doutrina eclesiástica com a teologia bíblica
da parte do supranaturalismo, contra o qual lutava o racionalismo filosófico.[9]
Registre-se, ainda, a confirmação da preconização de J. P. Gabler em 1787 em
conferência sobre: a diferença real
entre teologia bíblica e teologia dogmática e a correta determinação dessas
duas disciplinas[10].
Registra, ainda, Fohrer:
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|
Pelos fins de 1880, formou-se a escola
histórica da religião [...] provocou
uma clara distinção entre a perspectiva da história e a do dogma submetendo a
religião israelita, o judaísmo e o cristianismo a uma abordagem estritamente
histórica, que fosse impulsionada não por razões teológicas, mas simplesmente
no seu próprio interesse, tendo como meta uma síntese histórica[11].
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Julga-se necessário informar alguns dos resultados da
aplicação de metodologia puramente científica ao cânone da tradição judaico
cristã, para melhor compreensão do leitor laico. Destaca-se a reconstituição
dos textos mais próximos dos originais que a ciência conseguiu chegar,
constatação de pluralidade religiosa em ambos os livros sagrados, a autoria dos
livros sucumbiu à análise histórica com exceção das epístolas paulinas,
constou-se vários gêneros literários na grande maioria dos livros, indicando,
em especial no chamado Velho Testamento, que a tradição oral foi a fonte
principal dos manuscritos e a forma escrita feita por vários escritores de
diversas influências, constou-se o uso de figuras mitológicas, figuras de
linguagem e a influência de religiões próximas. Como consequência da aplicação
do método crítico histórico e literário, há uma profunda quebra relacional com
a teologia dogmática.
Outrossim, através de arrostados e permanentes estudos na
área teológica, verificou-se que, apesar do apedeutismo histórico e literário
constatado na juntada dos livros que compõem o cânon, indubitável restou não
existirem divergências principiológicas de natureza teológica em nenhum dos
livros. A Bíblia é uma harmoniosa coletânea de livros de natureza teológica,
com diversos estilos literários e autores desconhecidos.
É interessante notar que o período do Iluminismo assemelha-se
a um prelúdio que ambienta o racionalismo, onde uma eclosão de descobertas e
saberes afloram como se o pensamento humano, liberto das cadeias medievais e do
domínio governativo e da tutela dos dogmas da igreja papal, fosse provocado por
um sistema de ignição produzindo simultânea e encadeadamente uma ciclópica
quantidade e diversidade de conteúdos filosóficos. Ocorre como se fosse
retirada a opressora rolha da mais sofisticada champanhe, liberando seus
magníficos odores intensos e provocativos.
Não se pode excluir do estudo da metafísica, ainda que de
forma tão resumida, a obra e o pensamento de Karl Marx e Friedrich
Engels, Soren Aabye
Kierkegaard, Ludwig Feuerbach, Georg Wilhenlm Friedrich Hegel, Friedrich Wilhelm Nietzsche e muitos
outros filósofos de renome e importância literária. Alguns
dos citados autores hão de trazer suas contribuições para este trabalho
monográfico, contudo, pretende-se limitar a dissertação sobre a metafísica aos
limites de um capítulo, mesmo entendendo-se ser o tema central do racionalismo,
ou para negá-la, reafirmá-la ou harmonizá-la às novas concepções do pensamento
humano.
Antes de prosseguir-se no
desenvolvimento analítico torna-se necessário e oportuno estabelecer o conceito
autoral sobre o significado da linguagem por referência a metafísica, religião
e teologia. A metafísica é a linguagem filosófica, portanto laica, que define a
busca racional ou ideal de Deus, liberdade e vida eterna. A religião é o
resultado de um experimento sensório permissivo ao dogmatismo, que pode
produzir conjecturas filosóficas, teológicas, éticas e morais. Já a teologia se
ocupa em conhecer os valores imanentes de Deus na vida dos seres humanos e na
natureza. É uma análise profundamente voltada para a compreensão destes valores
e de sua origem, razão pela qual a Teologia se ocupa em analisar a totalidade
das potencialidades humanas, tanto em relação ao saber e a razão, quanto em
relação aos sentimentos e emoções. A Teologia perpassa pela cultura, grupamento
social, economia, filosofia, literatura, artes e todas as áreas do conhecimento
e da vida humana. A Teologia compreendeu seus limites aos fenômenos
transcendentes e não busca mais desvendar o que não nos foi dado a capacidade
de conhecer.
Rubem Alves, com sua tradicional verve literária, desenvolve
uma crítica a concepção de Marx sobre a religião e seu materialismo dialético,
a qual se procurou trazer a termo em sinopse.
[...] Mas o solo em (Marx) pisa desconhece
o mundo sacral. [...] Ele é secularizado do princípio ao fim e somente conhece
a ética do lucro e o entusiasmo do capital e da posse. [...] De fato, o
materialismo que é uma exigência do próprio sistema que só conhece o poder dos
fatores materiais. É a lógica do lucro e da riqueza que assim estabelece – e
não as inclinações pessoais daquele que a analisa. [...] (para Marx) A religião
não era culpada (pelas desgraças sociais de então) pela simples razão de que
ela não fazia diferença alguma. [...] Ela não era causa de coisa alguma. Um sintoma
apenas. [...] Os filósofos revolucionários, hegelianos de esquerda, não passavam
de réplicas de D. Quixote. [...] Marx riu disto. Os hegelianos vêem o mundo de
cabeça para baixo. [...] “Não é a consciência que determina a vida; é a vida
que determina a consciência”. E ele afirmava: “Até mesmo as concepções
nebulosas que existem nos cérebros dos homens são necessariamente sublimadas do
seu processo de vida, que é material, empiricamente observável e determinado
por premissas materiais. [...] Os homens são os produtores de suas concepções”.
“É o homem que faz a religião; a religião não faz o homem”. [...] Quem é esse
homem que produz a religião? Ele é um corpo, corpo que tem de comer, corpo que
necessita de roupa e habitação, corpo que se reproduz, corpo que tem que
transformar a natureza, trabalhar, para sobreviver. Mas o corpo não existe no
ar. [...] Vemos homens indissoluvelmente amarrados aos mundos onde se dá sua
luta pela sobrevivência, e exibindo em seus corpos as marcas da natureza e as
marcas das ferramentas. [...] E Marx se pergunta sobre um outro tipo de
trabalho que daria prazer e felicidade aos homens, trabalho companheiro das
criações dos artistas e do prazer não utilitário do brinquedo e do jogo...
Trabalho expressão da liberdade, atividade espiritual criadora, construção de
um mundo em harmonia com a intenção... É claro que Marx nunca viu esse sonho
utópico realizado em sociedade alguma. Foi ele que o construiu [...]. [...] Sua
marca está nisto: o homem deseja algo. Seu desejo provoca a imaginação
visualiza aquilo que é desejado [...]. A imaginação e o desejo informam ao corpo,
que se põe a trabalhar, por amor ao objeto que deve ser criado. E quando o
trabalho termina o criador contempla a sua obra, vê que é muito boa e
descansa...”[12].
Rubem Alves segue questionando os processos que envolvem o
trabalhador dentro das condições atuais: ele tem que alienar o seu desejo, pois
trabalha para outro e pelo desejo do outro, o objeto a ser produzido não é
resultado de sua decisão. Na verdade, o trabalhador, muitas vezes, participa de
uma pequena parte do fazer o objeto, aperta um parafuso, dá uma martelada. Por
tudo isso, o trabalho não é uma atividade prazerosa, mas uma atividade que dá
sofrimento e cria um mundo independente da vontade de operários... e
capitalistas, que são igualmente alienados pela lei do lucro. Este é o mundo
secular, utilitário, capitalista, regido pela lógica do dinheiro, contra o qual
os trabalhadores só possuem seus corpos que para produzirem necessitam estar
acoplados às máquinas. Igualmente acoplados estão os corpos que habitam o mundo
do lucro, não a máquinas, mas aos colarinhos brancos, aos restaurantes que
frequentam, às aventuras amorosas que têm, e às enfermidades cardiovasculares
que os afligem. Compreende-se que o que as pessoas têm normalmente nas suas
cabeças não seja conhecimento, não seja ciência, mas pura ideologia, fumaças,
secreções, reflexos de um mundo absurdo. Marx antevê o fim da religião. Ela só
existe numa situação marcada pela alienação. É equivocado pensar que o sagrado
é somente aquilo que ostenta os nomes religiosos tradicionais[13].
“Parece que a crítica marxista da religião
não termina com ela, mas simplesmente inaugura um outro capítulo. Porque, como
Albert Camus corretamente observa, “Marx foi o único que compreendeu que a
religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de política...”.”[14].
[1] Restam ao autor dúvidas
quanto à inclusão nesta dissertação de tema tão controverso na história do
conhecimento humano, em especial em função de já se haver concluído que a
Ciência do Direito Brasileiro segue uma linha iniciada em Augusto Kant e
fundada no neopositivismo. Contudo, a imperiosidade do momento gera razões que
propiciem passar-se ao largo do assunto, ainda que, a abordagem seja um modesto
ensaio superficial, orientador.
[2] HABERMAS, Jürgen.
Pensamento pós-metafísico: estudos filosóficos, traduzido do original alemão
por: Nachmetaphysisches Denken, Philosophische Aufsätze. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1990. P. 22
[8] KÜMMWL,
Werner Georg. Introdução
ao Novo Testamento; tradução de 17ª ed. Inteiramente refundida e aumentada da
Introdução ao Novo Testamento por Paulo Feine e Johannes Behm por Isabel Fontes
Leal Ferreira e João Paixão Neto. São Paulo: Paulus, 1982. P. 24-25
[9] FOHRER, Georg. História
da Religião de Israel; tradução de Josué Xavier; revisão de João Bosco de Lavor
Medeiros. São Paulo: Edições Paulinas, 1982. Pg. 9-10
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