O tempo é um eterno fugitivo, por isso, a vida deve ser intensa e a intensidade de viver advém de valores benéficos a sua continuidade, pois o dia seguinte está por amadurecer e deverá ser vivido com a mesma intensidade de hoje. Tempus Fugit, Carpe Diem.

sábado, 9 de maio de 2015

A Matriz Econômica do Direito Brasileiro

"O Brasil, definitivamente, não é para principiantes" Foi uma célebre frase proferida pelo compositor Tom Jobim, em 1990.[1]

Tal sentença é inspiradora e retrata a dura realidade brasileira Talvez seja um dos poucos países com uma economia representativa no cenário mundial, em que não se possa expressar com liberdade determinadas verdades, sob pena de se incorrer em gafe contra a moral e os bons costumes, ou ainda, ofender mortalmente os intelectuais acadêmicos. Dizer do Direito, por exemplo, ainda é algo relacionado aos melhores valores morais e os mais elevados costumes sociais. O Direito de Família ainda é classificado de natureza não econômica, como se fosse possível negar os fatos ocorridos diariamente nos corredores dos Tribunais de Justiça do país. Ainda mais, o Direito, para ser direito precisa estar nas mais altas nuvens do universo intelectual, inalcançável ao cidadão normal, ainda que como um conhecimento a priori.

Historicamente, pode-se dividir a sociedade brasileira, grosso modo, em três classes: os que não são partícipes das decisões de natureza jurídico-econômica, os que pensam que são e os que efetivamente o são, tomando decisões em função dos interesses e circunstâncias. A presença do Estado na economia sempre foi uma marca no modelo brasileiro, talvez, por isso, Ives Gandra Martins tenha o Estado como pertencente à Classe Ociosa na concepção vebleniana. Além do Estado poder-se-ia incluir os grandes grupos financeiros e os investidores nacionais e estrangeiros. Não se buscou com detalhes o percentual de representatividade dos investidores nacionais em relação à população brasileira por julgar-se do senso comum o conhecimento desta representação.

Falar sobre economia no Brasil é falar da atuação do Status Economicus, em alusão ao Homo economicus, criticado por Veblen. Ao Estado se alinharam e interagiram todos os que fizeram fortuna pecuniária e patrimonial, interagindo como agente do próprio poder público, ou como prestador de serviços, ou, ainda, como cooperador estratégico. Quando a economia mundial neoliberal foi atingida mortalmente no ano de 2008, o chefe de Estado e de governo afirmou que o impacto na economia nacional não passaria de uma simples “marola”. Tal pensamento ganhou status de verdade em todo o país, malgrado o desempenho econômico tivesse sido afetado.

A matriz econômica do Direito brasileiro está fundada no Estado (podendo-se entender como política), no mercado financeiro nacional e nas grandes corporações nacionais e estrangeiras. Neste contexto, o Direito é a ferramenta de regulação dos interesses comuns, prestando-se a dar legalidade aos atos necessários para a manutenção do sistema. E se todo o poder emana do povo, no regime democrático, então que se vicie o povo e todo o processo eleitoral; para tal, nada melhor do que o princípio da universalização e da obrigatoriedade do voto; sagrado direito assegurado em texto constitucional.

Na mesma Constituição Federal e na Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 encontramos a instituição do Código Tributário Nacional, onde são estabelecidos os tributos utilizáveis pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Dos tributos elencados pela Constituição, somente o imposto é um tributo desvinculado em sua utilização, ou seja, sob os respectivos orçamentos, o agente ativo tem o direito ao uso da discricionariedade, os demais tributos não, em especial as taxas e contribuições, havendo no texto constitucional uma predefinição para sua instituição e utilização. Desta forma, não cabe a discricionariedade para realocação dos recursos arrecadados, senão nas previstas no momento de sua instituição.

Contudo, o programa Fantástico da Rede Globo veiculou matéria constando uma entrevista com a Presidenta Dilma Roussef no dia 11/09/2011, a qual se reproduz aqui:

[...] Já que a presidente tinha acabado de falar em redução de impostos, em seguida, pergunto sobre o novo debate nos meios políticos: a possível volta da CPMF, o chamado imposto sobre o cheque. A presidente logo esclarece:

Dilma: Eu sou contra a CPMF, hein.

Patrícia: A senhora acha que a gente precisa de um imposto, de mais um imposto, para ter um atendimento de saúde melhor?

Dilma: Sabe por que a população é contra a CPMF? Porque a CPMF foi feita para ser uma coisa e virou outra. Acho que a CPMF foi um engodo nesse sentido de usar o dinheiro da saúde e não para saúde.

Patrícia: Está falando que foi desviado?

Dilma: Foi, foi. O dinheiro não foi usado onde devia. Nós, na saúde pública do país, gastamos 2,5 vezes menos do que na saúde privada. Um país desse tamanho, o maior país da América Latina, com a maior economia da América Latina, gasta 42% menos na saúde do que a Argentina.

Dilma: Para dar saúde de qualidade, nós vamos precisar de dinheiro, sim. Não tem jeito, tem de tirar de algum lugar. Agora, o Brasil precisará aumentar o seu gasto com saúde. Inexoravelmente.

Patrícia: Isso seria quando?

Dilma: O mais rápido possível.[2]

 

Na entrevista, tem-se uma confissão de desvio de finalidade da CPMF que, em nenhum momento da sua história foi um tributo com denominação e natureza de imposto. Cabem algumas perguntas. Onde está o Ministério Público? O que foi feito da OAB? Para onde foram as entidades representantes de classes patronais e de trabalhadores? E o interesse dos capitais privados, sim, uma vez que a contribuição era sobre todas as movimentações em contas correntes bancárias. Milhões de reais saíram dos cofres das empresas de capital privado e ninguém reclamou!

Sobre o olhar crítico de Nietzsche a respeito de um Estado democrático de direito e muito bem intencionado, suas palavras assumem o gênero literário dos grandes Profetas Bíblicos, que tanto exortaram ao povo que a confiança no Estado era enganosa, pois um Estado só pode ser confiável, se independente dele, os cidadãos coercitivamente pela instrumentalidade do Direito, cortar-lhe periodicamente suas garras e podar-lhe suas asas, pois quem precisa de garras e asas é o cidadão que não é supérfluo.

Ainda em algumas partespovos e rebanhos; mas entre nós, irmãos, entre nósEstados.
Estados? Que é isso? Vamos! Abrir os ouvidos, porque vos vou falar da morte dos povos.
Estado chama-se o mais frio de todos os monstros. Mente também friamente, e eis que mentira rasteira sai da sua boca: ‘Eu, o Estado, sou o povo’.
É uma mentira!
[...] A vós quer ele dar tudo, se o adorardes. Assim compra o brilho da vossa virtude e o altivo olhar dos vossos olhos.
Convosco quer atrair os supérfluos! Sim; inventou com isso uma artimanha infernal, um corcel de morte, ajaezado com o adorno brilhante das honras divinas.
Inventou para o grande número uma morte que se preza de ser vida, uma servidão à medida do desejo de todos os pregadores da morte.
O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e os maus; onde todos se perdem a si mesmos, os bons e os maus; onde o lento suicídio de todos se chama ‘a vida’.
[...] Onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; começa o canto dos que são necessários, a melodia única e insubstituível.
Ali, onde acaba o Estado... olhai, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do Super-homem?
Assim falou Zaratustra.”[3]


[2] Fantástico (Rede Globo) - Entrevista da Presidenta Dilma Rousseff a Patrícia Poeta, apresentado no dia 11/09/2011. http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1672642-15605,00.html acessado em 16/10/2011.

[3] NIETZSCHE, Friedrich – Assim Falou Zaratustra, 4ª edição – Ed. Martins Claret – São Paulo, SP. (pg. 55 e 56)

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